O Poderoso Chefinho
Quem é filho único sabe as
vantagens e desvantagens de sua condição. Crescer sendo o centro das atenções é
o máximo; ganha um dengo aqui e outro ali, os pais têm mais paciência, não
precisa dividir os brinquedos... enfim! Mas a solidão de um filho único também
é real. Apesar de achar que nós somos mais criativos por conta disso, eu sempre
quis um irmão para ter companhia fora de hora. Meus amigos sempre estavam lá:
sexta, depois aula, nos feriados e, é claro, no fim de semana. Mas e aquela
brincadeira na segunda, quando volta da aula? Imaginação em ação.
É óbvio que nem todos sentem
falta de uma companhia. Eu não sentia o tempo todo, porque sempre estava
entretida imaginando mil coisas, mil diálogos entre o Playmobil, construindo
projetos fantásticos no LEGO, arrasando com a Barbie, montando um quebra-cabeça
ou vendo um desenho. Uma das maiores vantagens de ser filho único, sempre
achei, é quando a mãe coloca a gente de castigo: “não vai pro play.” Ok! Filho
único não tem problema em ficar só. Acostumado a brincar sempre sozinho, a
proibição de ir se divertir com os amigos é chata, mas não é um bicho de sete
cabeças.
Em “O Poderoso Chefinho”, Tim é
filho único e tem total atenção, amor e cuidado dos pais. Com uma imaginação
muito forte, ele tem a companhia fiel dos pais para qualquer situação. Quando
indagado sobre o desejo de ter um irmão, ele deixa bem claro que não quer.
Porém, o coitado não sabe o que está por vir e fica chocado quando entra pela
porta, junto a seus pais, um bebê... de terno e gravata. O mundo do pequeno Tim
é virado de cabeça para baixo. O simpático bebê (aparentemente), nada mais é
que um executivo, que trabalha para uma fábrica de bebês. Com uma missão a ser
cumprida, o bebê faz de tudo para deixar o irmão mais velho fora do seu caminho,
inclusive, maltratando o menino. É interessante pensar na premissa apresentada
pelo filme. A forma como mostra que o filho único perde seu reinado, como ele
se sente e como vê o irmão, enquanto todos babam pela criatura fofinha, que
para ele não passa de um estranho que está dominando o lugar que deveria ser só
dele.
“O Poderoso Chefinho” diverte com
suas cenas engraças e improváveis, principalmente quando se trata de um bebê
altamente articulado, inteligente, frio e calculista. Praticamente um vilão de
fraldas. E emociona ao mostrar o ponto de vista de uma criança de sete anos que
está aprendendo a lidar com aquela situação. Além disso, tem cores bonitas e
uma trilha sonora encantadora. A Dreamworks entrega um trabalho cuidadoso e que
cumpre o que propõe. Confesso que achei um pouco maldoso colocar uma “guerra”
entre bebês e filhotes de cachorro, já que muita gente pensa que para ter bebê
precisa se livrar do filho de quatro patas ou que um substitui o outro. Se essa
mensagem fica clara no filme para todos, eu não sei. Mas como essa realidade
existe é bastante triste, eu descartaria essa briga e colocaria outra situação
no lugar. Problematizadora, sim. Se não fosse uma questão tão cruel, eu nem
perceberia.
O filme chega aos cinemas hoje,
30 de março e ganha o público pela sua fofura. As partes de família são tão
bonitas e emocionantes, que não precisam ser apelativas. Elas emocionam de
forma simples, por mostrarem como é importante a presença de algumas pessoas em
nossas vidas.
Levante do sofá e leve as
crianças para uma animação que vale a pena. Mas explique a elas que
cachorrinhos não substituem bebês e nem bebês substituem cachorrinhos. É sempre
bom deixar claro isso.
Vale a pipoca, o refrigerante e o
lanche famoso com brinde que as crianças tanto gostam.

Café com Alice
por Rafa Icó
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